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O Retrato de Dória Grey

janeiro 25, 2017

(Dica L. Marx)

E por hora, só o que sei
É que o que restou nas paredes
Foi o retrato de Dória Grey.

São Paulo, 25 de janeiro de 2017.

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Admirar

dezembro 24, 2016

(Dica L. Marx)

Ao te mirar,
Rebenta tempestade entre os cílios,
Rio um riso solar,
A face se comove em arco-iris.

Ao te mirar,
Cachoeira em meu rosto,
Lábios largos a brilhar
Formam-se cores do oposto.

Ao te mirar,
Pisco e sinto a garoa,
Covinhas a se revelar
Se convertem em lagoa.

Ao te mirar
Íris embaçam com a maré,
Riso é luz a clarear,
Sou tal qual Oxumaré.

Para Juê Olivia

São Paulo, 24 de dezembro de 2016.

Na Redoma

setembro 23, 2016

(Dica L. Marx)

Por vezes eu sinto, quando eu estou com você,
Que os ponteiros do relógio param de bater,
Que as leis da física deixam de valer
E que todas as coisas têm razão de ser.

Por vezes eu sinto, quando estou com você,
Que coisas ruins não podem acontecer,
Que o mundo é bom, mesmo sem ser
E que tudo é melhor do que eu posso ver.

Por vezes eu sinto, quando estou com você,
Como se a língua dos pássaros eu pudesse entender,
Como se a flor mais doce fosse me proteger
Dos espessos espinhos que a vida me faz temer.

Por vezes eu sinto, quando estou com você,
Como se toda a verdade eu pudesse dizer,
Como se a água mais pura eu pudesse beber
E deixar, na sua frente, a lágrima correr.

Por vezes eu sinto, quando estou com você,
Que o sol fica estanque no entardecer,
Que em seu canto o silêncio quer emudecer,
Pois não há mais palavras para descrever

O que sinto quando estou perto de você.

São Paulo, 04 de fevereiro de 2015.

Pequenininhos

julho 29, 2016

(Dica L. Marx)

A dor apertou tanto, tanto, tanto…
Que chegou a espanar.
O coração fez-se em caquinhos
(bem pequenininhos)
Que o espanador tive que usar.
Pra limpar.

São Paulo 29 de julho de 2016.

Sobre pipões e a sabedoria

julho 23, 2016

Favela, o seu pipa aterrissa no coração.
Favela, quem não rouba minha brisa faz furacão.

Ela é favela – Aláfia

 

(Dica L. Marx)

Nos meus tempos de infância, e mesmo de pré-adolescência, eu gostava, particularmente, de uns dias de céu azul, geralmente, do mês de julho, durante as férias escolares. Esses dias, sem nenhuma nuvem e com um bom vento pra soltar pipa, eram muito gostosos, pois, além da buniteza da cor do céu , havia a explosão de cores dos pipas que dançavam por todos os lados. Em dias assim, era possível, até, ver a linha 10 Corrente, a única corrente que libertava ao invés de aprisionar e que conectavam os meninos àquelas dançarinas flutuantes fazendo-os voar para longe de muitos dos problemas que os atingiam em terra.

Mas dentre as belezas desses dias, havia uma em especial que me chamava muito a atenção e despertava admiração, essa beleza era a dos pipões. Esses – diferentemente da maior parte dos pipas que voavam baixo, desbicando pra lá e pra cá sem parar, dançando a depender do formato e da rabiola, afobados em dar um rélo na maior quantidade de outros pipas possíveis – ficavam muito altos, lá lonjão, parados, silenciosos e acompanhados somente por alguns outros poucos que mantinham o mesmo comportamento, quando não estavam sozinhos, mesmo.

Esses pipões, muitas vezes eram nomeados pelos mulekes de acordo com suas cores ou símbolos, como por exemplo, “o Vermelhão”, “o Pretão”, ou o “Xisão”, ou “Xadrezão” e assim por diante. O que me chamava a atenção era o tempo que esses pipas ficavam lá, parados a não sei quantos pés de distância, sem se mover por tempos longuíssimos como se observassem atentamente tudo com certa distância, cuidadosamente, silenciosamente, percebendo todos os detalhes do que se passava na multidão de pipas coloridos, inquietos e alvoroçados por cortarem uns aos outros. Eu ficava sempre imaginando quem seriam as pessoas que soltavam esses pipas: Como eram? O que pensavam, enquanto ali embaixo nós nos atracávamos nas boleiras e na barba-cabelo-bigode? Onde estavam? De onde tiravam aquela calma de esperar tanto tempo antes de qualquer movimento?

– Movimento?

Sim, movimento. Pois apesar de ficarem largo tempo parados, em certo momento – talvez semelhante ao lampejo de quem, depois de muito observar e refletir, chega a uma conclusão e parte pra ação – eles se movimentavam, o que causava um rebuliço só, não apenas entre os que, até então, estavam cortando todos os outros, como também entre os meninos que nem estavam empinando pipa, mas que acompanhavam o espetáculo, tal qual vissem um filme no cinema, naquela imensa tela azul ao ar livre. Nessas horas, era um tal de: “Vixi! Óia, o Pretão tá descendo, agora eu quero ver”, “Nossa, não vai dar nem pro cheiro”. E, na maior parte das vezes, acertavam na mosca. Pois, quando os pipões começavam a desbicar pro lado e, na sequência, a virar de cabeça-pra-baixo e descer rapidamente, era certeiro – tal qual flecha de Oxóssi – que fosse qual fosse seu alvo, ele já tinha sido mandado antes mesmo de sua linha ter sido tocada pela do pipão. E, geralmente, após cortar o outro pipa, o pipão voltava lentamente para o seu posto e ali permanecia por mais um longo tempo, até encontrar e decidir sobre o seu próximo alvo.

Em minha cabeça de garoto, sempre tive pra mim que as pessoas que empinavam os pipões eram pessoas mais velhas, seja por perceber que eles tinham muita linha pra descarregar (dois dos tubão, no mínimo, coisa que a mulekada nem sempre podia ter), seja por achar que paciência era uma característica dos mais velhos.

Outra coisa que pensava naquele tempo era que os empinadores de pipões viviam em locais altos, em morros de onde podiam olhar para a situação de modo mais amplo. Mas creio que o que realmente me admirava e chamava minha atenção, nesses pipeiros, era a paciência, a capacidade que tinham de, no meio de tanta tentação de descer e cortar todos os pipas, ficarem ali no alto, lá lonjão, parados evitando certas boleiras, desembaraçando o pensamento, sentindo nos poros o sabor do vento antes de se manifestarem de maneira certeira.

É curioso pensar que hoje, já adulto, a admiração que eu sentia pelos empinadores de pipões, seja a mesma admiração que tenho por algumas/alguns pensadores do nosso tempo que, do alto do morro de suas observações e reflexões, evitam as boleiras propostas em determinados fóruns ou redes sociais, desembaraçam alguns de meus pensamentos confusos e quando se manifestam fazem zunir o arco com uma única flecha.

Pra essas pessoas dedico esse texto.

Okê Arô!

 

Da série: amores paulistanos

junho 29, 2016

Serena?
(Dica L. Marx)

E o poeta Juan Gelman perguntou:
– “Amor que serena, termina?”
E eu, paulistano que sou,
não tardei em responder:
– Não sei se ainda existe sereno em SP.

São Paulo, 29 de junho de 2016.

Amora, limão
(Dica L. Marx)

E ao paulistano que se viu perdido de amores pela alemã, restou dizer:

– Ixi, liebe dich.

São Paulo, 28 de julho de 2016.

Calunga

outubro 22, 2015

(Dica L. Marx)

Caminho devagar, a divagar.
E não se engane com esse sorriso,
Puro improviso.
Não é ele que habito.
No centro negro dos meus olhos
Resido, resisto e reexisto.
Esse sim sou eu,
Tentando buscar algum encanto,
Buscando escapar desse banzo,
Do Calunga imenso e profundo
Que se tornou esse tambor no meu peito,
Já tão repleto de angústias
Que, por vezes, me afogo em mim mesmo.

São Paulo, 22 de outubro de 2015.