Será que existe amor em SP?
O observador caminha pelas ruas de São Paulo.
- Será que existe Amor em SP? – ele se pergunta ao mesmo tempo em que afirma o contrário ao cantarolar a música do poeta da periferia que, como Cartola, arranca poesia da dureza da vida, nesse caso, do concreto frio da cidade cinza.
O observador se pergunta se ainda faz sentido viver nessa cidade, se é viver o que se faz nessa cidade. Ele desce a Rua Augusta a caminho do trabalho. Está atrasado e por isso deixou o café da manhã para mais tarde. Não come desde a meia-noite.
Um carro à Speed Racer atravessa seu raio de visão. O observador pensa em como as pessoas criam coisas que depois passam a controla-las.
- Será que o carro é mais importante que o homem que o ‘dirige’? O homem sai de carro para passear ou o carro leva o homem para passear? – sua visão marxista o leva a uma resposta…
- E Deus? Nós o criamos para que depois ele pudesse nos criar? Depois nós o matamos para podermos ser ‘livres’, apesar de nossa culpa cristã por esse infante-parricídio – sua visão ateia o leva a uma resposta…
O observador continua seu caminho. Entra no estacionamento-atalho. Ele vê rapidamente alguns pombos e lembra-se do poeta maranhense.
- “Eles sabem voar alto, mas insistem em catar as migalhas do chão”.
O observador continua seu caminho. Pela outra entrada do estacionamento-atalho um homem e um cachorro presos por uma corrente.
- O homem passeia com o seu cachorro ou o cachorro passeia com o seu homem? – sua visão antropocêntrica o leva a uma resposta…
O observador vê o homem se assustar com o voo dos pombos que com ele se assustaram.
- O homem se afasta um pouco para frente seguido de seu cachorro ou o cachorro se afasta para frente seguido de seu homem? – a visão seguinte não o permite chegar a uma resposta…
O observador tenta tampar seus olhos ao ver o carro enorme guiado por um homem ou um homem guiado por um carro enorme que atropela o cachorro do homem ou o cachorro que levava seu homem para passear.
…
- Deus…Meu Deus…Ai meu Deus!
- Caim…caim…caim!
Depois de um momento ‘de olhos bem fechados’ o observador começa a recobrar sua consciência. O homem carrega seu cachorro no colo ou o cachorro gani no colo de seu homem. Talvez seu ganido queira dizer “ai meu Deus” na língua dos cães, algo como “Oh! My God” ou “Oh! My Dog”.
O observador vê o homem que trabalha como manobrista era ele quem dirigia o carro ou que era dirigido pelo carro. Ele olha para o homem e para seu cachorro ou para o cachorro e seu homem. Sobe novamente no carro e leva esse para o estacionamento ou é levado pelo carro para o estacionamento, o carro que pertence a outro homem ou que possui outro homem e que o homem que trabalha como manobrista nunca irá possuir ou pelo qual nunca será possuído.
O observador não vê mais nada. Ele apenas segue seu caminho, mesmo sem saber como faz isso. Mesmo sem saber para onde vai, qual o sentido.
- Ainda faz sentido viver nessa cidade? É vida o que se tem nessa cidade? Será que existe amor em SP?
Dica L. Marx
São Paulo, 15 de setembro de 2011
puxa, meu amigo… apenas há algumas horas de embarcar de volta ao desvairamento dessa terra, distante e fria (em todos os possíveis sentidos), minha espinha esfria e arrepia com suas palavras. no entanto, junto do temor de ser re-entranhada pela dura, ácida e enlouquecedora esfera paulistana, emerge a paz introjeta e num processo rápido, indolor e sem efeitos colateriais negativos da VIDA em são salvador. às suas últimas perguntas, que há tempos eu mesma já vinha entoando como reflexo do corpo sempre furioso e doente, minha visão (e audiçao e olfato e carne e osso e alma e amor) afro-baiana me leva a uma resposta: não, não e não.
uma vez ouvi uma história do homem com um alçapão na cabeça. um acidente marítimo e lá se foi o alçapão traçando a cabeça do homem. ele incrivelmente, sobreviveu. mas daquele dia em diante, mesmo contentado por estar vivo, toda sua existência se baseava no alçapão em sua cabeça, uma coisa contra a qual ele jamais poderia deixar de lado para viver. tudo era aquele alçapão. acho que SP é como esse alçapão. pelo menos estamos vivos. pelomenos. pelomenismo. ou ainda pior: há algo traçando as cabeças paulistanas, fazendo ver a barbárie como essencial, como o motivo único da existência, que só “nós” temos a sorte e estamos certos em viver ali.
que SP tem mais “dinheiro”, mais “oportunidades”, mais “recursos”, mais “avanços tecnológicos”, mais “avanços industriais”, mais “avanços econômicos”: defeito, é pra quem tem. vida é muito melhor que isso, ainda que pior, em sentidos muito menos importantes (estes que SP tem de sobra). aprendo (na verdade, apenas confirmo uma antiga ansia) isso aqui.
agradeço, ainda que em tom de autocontradição, pelo encurtamento das distâncias, que me farão estar perto das raríssimas pessoas a quem tive sorte de ter por perto, amores, como vc, meu amigo. e sei, mais ainda, que estaremos mais perto se vivermos em cidades, estados diferentes e distantes do que em 2 bairros (ou dois prédios, ou 2 quartos) diferentes em SP. ainda que torça para que saia daí, enquanto é tempo e que possamos viver pertinho que vida assim é bem melhor! sp, jamais deixará isso acontecer.
te agradeço mto pelas palavras!
saudade imensa!
juê